
Nesta versão do mundo, a Covid-19 não veio a ocorrer e milhares de pessoas que teriam partido andam entre nós tranquilamente. Elas nos olham como sempre fizeram e, por vezes, têm o desaforo de discutir conosco ou a graça de nos abraçar. Deveriam elas suspeitar de algo?
Neste cenário livre da Covid-19, as minhas mãos estão mais suaves e a minha mente guarda certezas mais firmes. Eu não conheço tão bem os detalhes da minha casa ou os detalhes de como age cada um que mora nela. Como um todo, conhecemos menos receitas e menos jogos.
Em nenhum dia do ano faltaram selfies tirados nas ruas lotadas de Roma, Praga ou Nova York. Não houve um coronavírus para esvaziar esses lugares que já não sabiam como existir desocupados. Vejo essas pessoas sorrindo para a câmera como se houvessem descoberto para si um novo tipo de felicidade, aquela que não irá embora, que não parece sofrer qualquer risco.
Sem que uma pandemia invada a minha realidade, gasto mais do que eu deveria, como se fosse um desafio frontal às leis financeiras. Já passei por vários anos de economia ruim, mas nunca desconfiaria que a economia do país pudesse encolher anos em alguns meses. E com essa ingenuidade doce, peço mais um chope com preço exagerado.
Nesta dimensão o meu conhecimento é menor, subestimo o que podem fazer sabão e água apenas e ignoro que a Gripe Espanhola levou mais pessoas do a Primeira Guerra Mundial. Para mim, SARS e Ebola soam mais como temas de um filme catástrofe e não como um tipo de risco para a minha vida. E, não por acaso, mesmo antes de terminar o chope de preço injustificável, tento comprar por um aplicativo dois ingressos para a minha sala de cinema preferida na cidade. Todas as 200 cadeiras já haviam sido vendidas e isso me deixa desproporcionalmente irritado. Claro, eu poderia ir a outra sessão ou a outro cinema, mas sempre podemos arrumar algo para manter um nível interno de frustração, para isso não importa em que dimensão estejamos.
Algo me diz que eu deveria buscar um equilíbrio melhor entre apreciação e raiva. É uma ideia muito razoável, tão razoável que não consigo lhe colocar qualquer objeção. Porém isso não impede que essa ideia vá se diluindo em meio a outras ideias, encolhendo por causa dos avisos do celular, pelo fluxo de microdecisões e microdistrações do restante do dia. As coisas não param de acontecer neste mundo sem Covid-19.
